Fotografias não tiradas

fotografias não tiradas

Quando se fala em fotografia é meio óbvio e quase intuitivo falar das fotografias mais famosas, com composições incríveis e momentos únicos e se falar também daqueles que registraram esses momentos, os fotógrafos mais famosos, experientes e a àqueles que digam “os sortudos!”. Na minha pouca experiência com a fotografia tenho certeza que sorte não é um dos elementos principais para se obter uma boa fotografia, pois se você tiver que contar com ela pra lhe ensinar, angulo, direção, fotometragem e composição estaríamos perdidos.

Nesse contexto de boas fotografias, alguém se perguntou, “Mas se eles não tivessem feito a foto?!”… “Como assim, não fazer a foto?”. É isso mesmo, da mesma forma que a fotógrafos com histórias incríveis sobre fotografias feitas, esses também podem relatar suas experiencias do que não foi fotografado e do sentimento envolvido naquele momento.

De acordo com um depoimento impactante de Custódio Coimbra, no filme Abaixando a Maquina, que ao lembrar da cobertura feita da tragédia com o ônibus 174, afirmou: “Se o cara atirasse eu deixaria de ser fotógrafo”. Que sentimentos são esses capazes de paralisar profissionais que dependem da fotografia.

Nós estamos falamos de fotógrafos que perderam o momento do click ou por emoção ou simplesmente porque resolveram abaixar a câmera. No livro Photographs Not Taken, que alias foi o que serviu de inspiração para o tema do nosso post, podemos ver relatos de alguns fotógrafos e o sentimento envolvido naquele momento como Jim Goldberg, que lembra do nascimento de sua filha. Diz que usou a câmera como uma máscara, algo para se esconder enquanto sua mulher estava em trabalho de parto. Mas o momento em que a cabeça da filha começou a aparecer, ele conta que largou a câmera. “De jeito nenhum que eu ia usar a câmera e perder aqueles momentos incríveis”, resume o fotógrafo. A sua emoção foi tão grande que se esqueceu completamente de registrar o momento, afinal era sua filha quem estava nascendo.

E falando ainda da emoção que envolve a família, a fotógrafa Elinor Carucci fala sobre a experiência em ser mãe, seu momento de escolha, “Tive que escolher entre a fotografia e a maternidade. E quando escolhia a fotografia, cada foto se tornava um segundo de culpa.”

Os fotógrafos que mais sofrem com o impasse do que fotografar ou não, são os fotojornalistas, aqueles que relatam a realidade. O momento entre “ser e fotografar”.

Erica Larsen e Tim Hetherington, morto em 2011 quando cobria um conflito na Líbia, já passaram por grandes impasses os quais os fizeram abaixar a câmera. Larsem fala do momento em que teria que fotografar a família de uma jovem que teria se matado, ela relata que ao entrar no quarto, o pai estava com a moça.  “Eu podia ver a imagem, mas conseguia apenas ver os soluços dele e sentir minhas próprias lágrimas… Segurei a minha 4×5 no peito, pronta para fotografar, mas não pude. Abaixei a câmera; o momento era dele”.

Hetherington, falou sobre sua hesitação entre fotografar um africano desconhecido e um soldado americano. “Minha hesitação me preocupou. Eu tinha ficado sensibilizado desta vez porque o soldado não era um africano sem nome? Talvez eu tivesse mudado e compreendido que deve haver limites no que é mostrado ao público? Certamente, eu não estaria nesta posição de questionamento se não tivesse tirado a fotografia, mas eu tirei”.

Por Suzane Almeida

Fonte: ObservatóriodaImprensa

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