Fotógrafo Robert Frank

Hoje vamos falar do fotógrafo Robert Frank, fotojornalista, fotógrafo de moda, street photographer, ou simplesmente um apaixonado pela captura de imagens.

Pessoas e objetos rotineiros. Sujeitos presentes em toda parte, que passam despercebidos, sobre os quais não refletimos. Esse, pode-se dizer, foi o mote, a característica marcante das fotografias do suíço Robert Frank, um dos mais norte-americanos fotógrafos do século XX. Nascido em 1924, em Zurique, Frank teve lá seu primeiro contato com a fotografia, inspirado pelos periódicos ilustrados da Europa da década de 1930.

Robert Frank, no entanto, nunca se preocupou em retratar o próprio país ou seu desolado continente pós-guerra. No final da década de 1940 viajou pela América do Sul e logo em seguida foi procurar trabalho nos Estados Unidos, dita terra da liberdade. Em Nova York foi apadrinhado por diversos fotógrafos locais como Walker Evans.

Trabalhou com moda e trabalhou para a revista Happer`s Bazaar por algum tempo, mas, apesar de compensatória, a fotografia de moda era segura. O estilo fotográfico “de moda” não o agradava muito. O estúdio (ambiente que muitos fotógrafos gostam), as fotos cheias de regras, e limitações, sapatos, bolsas, roupas, o ocupava e o prendia… E o excesso de segurança, ou a falta do risco, havia sido um dos motivos pelos quais Frank havia deixado a Suíça. Segundo ele mesmo, o que mais o atraía nos Estados Unidos antes de chegar lá eram os banheiros e as geladeiras. No entanto, a primeira coisa que o impressionou quando desceu do avião foi uma auto-estrada repleta de carros. O símbolo de liberdade de um país onde, com um automóvel, se pode ir do Atlântico ao Pacífico. Foi o que ele fez.

Bolsista da Fundação Guggenheim, Frank cruzou a “América” entre 1955 e 1956, fotografando uma face mais sombria e realista do país que propagava aos quatro cantos do mundo a perfeição cinematográfica de Hollywood. Muito comparado a On the Road, livro de Jack Kerouac também fruto de uma viagem rodoviária pelos Estados Unidos, o projeto de Robert Frank surgiu como uma forma de elucidar o povo americano sobre ele mesmo, tentar trazer um reflexo àquele país de dimensões continentais.

À medida que Frank viajava de Chicago a São Francisco, de Houston a Nova York, o futuro livro tomava forma e se tornava mais focado. O fotógrafo passou a se tornar atraído não simplesmente por objetos e personagens concretos (bandeiras, cowboys, motociclistas, jukeboxes…), mas pelo sentimento que esses transmitiam. O que o atraía em hotéis era a solidão, a melancolia das luzes noturnas, o isolamento das pessoas sentadas em paradas de ônibus. Suas fotos, embora muitas vezes passem a idéia de movimento, são imagens estáticas, congeladas, de personagens imóveis. Recurso, segundo Frank, essencial para uma boa fotografia: “A foto é tanto mais interessante quando nos faz pensar no que aconteceu antes e no que acontecerá depois – a imagem fixa permanecendo no meio”.  Raramente conversava com as pessoas que fotografava. O objeto não era o que mais importava pra ele, mas o que se podia sentir sobre e através dele.

Ao final de sua viagem de quase dois anos Robert Frank possuía cerca de 28000 negativos. Desses, publicou 83 em seu livro, intitulado simplesmente The Americans.

Editado pelo fotógrafo francês Robert Delpire, com textos de Alain Bosquet e prefácio de Jack Kerouac, o livro foi lançado na Europa em 1958. Um ano mais tarde, quando chegou aos Estados Unidos, The Americansdesagradou aos próprios intitulados, os americanos, que se viram muito menos glamorosos do que julgavam ser. Frank chegou a ser considerado como mais um estrangeiro empenhado em destruir a imagem da “América”. Foi comparado a Walker Evans, americano nato que fotografara na década de 30 projeto semelhante, mas a serviço do governo, através da Farm Security Administration. Evans dignificara a miséria estado-unidense, e Frank, apesar de fascinado pelo país, desmontou tudo. Hoje, nos Estados Unidos e em qualquer lugar, The Americans é considerado um marco na história da fotografia.

Publicado o livro, Robert Frank não realizou mais nenhum trabalho fotográfico inédito de complexidade ou relevância semelhante. Tornou-se um artista de vanguarda, conceitual. Com o passar do tempo sua obra se tornou mais flexível, informal, e muito ligada à idéia de movimento. Realizou composições de forma dinâmica, desequilibradas, fora de ordem, instáveis, fora de foco, muito claras ou muito escuras. Por vezes, parecendo que nem sequer olhava através do visor ou verificava os controles da câmara. No entanto, Frank havia aprendido o suficiente sobre a relação entre tons e escalas para provocar a sensação de peso ou leveza que desejava. Sabia que as sombras ou os desfoques deveriam ser legíveis, ou até mesmo abstratos, mas ainda assim expressivos e instigantes. Percebeu também, cada vez mais profundamente, que seu estilo anterior, refinado, lírico, era grosseiramente incapaz de transmitir a dureza da vida que encontrou, bem como a multiplicidade de incertezas de seus próprios sentimentos e experiências.

A partir de 1959 Robert Frank passou a se dedicar ao cinema. Seu primeiro filme, Pull My Daisy,teve Jack Kerouac como narrador e seguiu os passos da recém-formada geração beat, composta principalmente por artistas libertários, hedonistas e, de certa forma, espiritualizados. De 1959 até 2000, ano de lançamento de seu último filme, Frank realizou 21 projetos cinematográficos. Curiosamente, só ocupou a posição de diretor de fotografia em três deles.

Texto original de Eduardo Nozari escrito em colaboração de Carine Wallauer, Roberta Roth e Simone Bertuzzi para a disciplina de fotojornalismo.

Fonte: Sobretudocinema, Temnafotografia

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